TerralyrBlogGeorreferenciamento de polígonos: o que os compradores europeus exigem
Análise Espacial

Georreferenciamento de polígonos: o que os compradores europeus exigem

Compradores europeus exigem coordenadas geográficas de cada parcela produtora para cumprir o EUDR. Este guia técnico explica os formatos aceitos, a precisão necessária e os erros mais comuns.

Terralyr Intelligence·Análise Geoespacial14 de junho de 20268 min de leitura

De todas as exigências do EUDR, a coleta de dados de georreferenciamento é a que mais gera dúvidas entre produtores, cooperativas e exportadores brasileiros. O regulamento exige coordenadas geográficas de cada parcela produtora — mas o que isso significa na prática? Que formato? Que precisão? O CAR serve? E quando um produtor tem várias glebas?

Este guia técnico responde a essas perguntas com precisão, baseado na leitura do regulamento e nas orientações da Comissão Europeia publicadas até o momento.

O Que o Regulamento Diz Exatamente

O Artigo 9.º do EUDR determina que os operadores devem recolher, para cada produto colocado no mercado da UE:

"A geolocalização de todos os terrenos onde foram produzidas as matérias-primas relevantes, e, no caso de produtos que contenham ou foram produzidos a partir de matérias-primas pertencentes a vários fornecedores, a geolocalização de todos os terrenos."

Para matérias-primas de origem em parcelas de menos de 4 hectares, o regulamento aceita uma representação em ponto (centroide). Para parcelas maiores, polígonos são a exigência padrão.

Formatos de Dados Aceitos

A Comissão Europeia não especificou um formato proprietário único, mas os formatos mais aceitos pelos compradores europeus e pelo sistema de informação da UE são:

GeoJSON (preferencial)

Formato aberto baseado em JSON, amplamente suportado por softwares GIS e plataformas digitais. Um arquivo GeoJSON de polígono de propriedade se parece com:

{
  "type": "Feature",
  "geometry": {
    "type": "Polygon",
    "coordinates": [[
      [-49.1234, -14.5678],
      [-49.1289, -14.5701],
      [-49.1301, -14.5643],
      [-49.1234, -14.5678]
    ]]
  },
  "properties": {
    "produtor": "João Silva",
    "car": "BA-2931208-...",
    "area_ha": 5.2
  }
}

Shapefile (aceito universalmente)

Formato padrão do setor geoespacial. Um shapefile consiste em pelo menos três arquivos (.shp, .shx, .dbf) e deve ser projetado em WGS84 (EPSG:4326) — não em SIRGAS 2000 ou qualquer outro sistema de referência.

KML/KMZ

Formato do Google Earth. Aceito por muitos compradores mas menos robusto para análise técnica. Use GeoJSON ou shapefile quando possível.

Coordenadas CSV (para pontos/centroides)

Para propriedades menores de 4 ha, uma planilha com colunas de latitude e longitude em decimal é suficiente. Exemplo de formato correto:

produtor,latitude,longitude,area_ha
Maria Santos,-14.5234,-49.1890,2.8
José Oliveira,-14.6012,-49.2341,3.1

Sistema de Referência Geodésico: Por Que WGS84 É Obrigatório

Este é um dos erros mais comuns na prática: exportar dados do CAR em SIRGAS 2000 sem reprojetar para WGS84. Para a maioria das aplicações práticas no Brasil, a diferença entre SIRGAS 2000 e WGS84 é milimétrica e irrelevante. Porém, o sistema de informação da UE e os softwares de verificação esperam WGS84 por padrão. Forneça sempre coordenadas em WGS84 (graus decimais, não graus-minutos-segundos).

Exemplo correto: -14.5678, -49.1234 (latitude, longitude em graus decimais)

Exemplo incorreto: 14°34'04"S, 49°07'24"W (graus-minutos-segundos precisam ser convertidos)

O CAR Como Fonte de Polígonos: Vantagens e Limitações

Vantagens

  • Cobertura ampla: a maioria das propriedades rurais brasileiras tem CAR registrado
  • Download gratuito no SICAR (sicar.gov.br) por qualquer pessoa com CPF/CNPJ
  • Os polígonos do CAR já delimitam a propriedade e suas áreas de uso
  • O CAR distingue Área de Reserva Legal, APP, e Área de Uso Consolidado — informações relevantes para a verificação EUDR

Limitações Críticas

  • O CAR delimita a propriedade, não a área de produção. Uma fazenda de 100 ha com CAR pode ter apenas 20 ha de cacau. O polígono EUDR deve ser o da área efetivamente produtiva, não de toda a propriedade.
  • CARs pendentes, suspensos ou cancelados não podem ser usados como documentação de conformidade.
  • Sobreposição com embargos do IBAMA é um sinal vermelho crítico — propriedades com áreas embargadas não são exportáveis.
  • Para minifúndios sem CAR (especialmente na Amazônia), coleta em campo com GPS é necessária.

Precisão GPS: Quanto É Suficiente?

O EUDR não especifica uma tolerância de precisão GPS explícita, mas a orientação da Comissão Europeia indica que os dados devem ser "suficientemente precisos para permitir a verificação" de que a parcela não se sobrepõe a áreas de desmatamento.

Na prática:

  • GPS de celular comum: precisão de 3–10 metros. Adequado para polígonos de propriedades e para verificação de desmatamento em escala de parcela.
  • GPS GNSS de dupla frequência: precisão centimétrica. Necessário apenas para perícias judiciais ou mapeamentos cadastrais — não exigido pelo EUDR.
  • Centroides do CAR: suficientes para parcelas menores de 4 ha. Para parcelas maiores, use o polígono completo.

Ferramentas Gratuitas Para Coletar e Formatar Polígonos

Google Earth Pro

Gratuito. Permite desenhar polígonos sobre imagens de satélite e exportar como KML. Útil para verificação visual mas limitado para processamento em massa.

QGIS

Software GIS gratuito e open-source. Permite importar CARs do SICAR, reprojetar para WGS84, recortar a área de produção e exportar em GeoJSON ou shapefile. Recomendado para técnicos e cooperativas com volume médio a alto.

ODK / KoBoToolbox

Aplicativos de coleta de dados em campo com GPS integrado. Ideais para técnicos de extensão rural que fazem coleta de coordenadas diretamente nas propriedades. Exportam dados em formato compatível com EUDR.

Terralyr Field Census

Módulo específico para coleta de dados de campo com rastreabilidade EUDR integrada. Gera automaticamente o arquivo de geolocalização no formato exigido pelos compradores europeus.

Erros Mais Comuns e Como Evitá-los

  • Fornecer apenas o endereço do município — não é geolocalização, não é aceito pelo EUDR
  • Usar o polígono da propriedade inteira quando apenas parte é produtiva — cria risco de verificação positiva em áreas de floresta dentro da propriedade
  • Coordenadas em graus-minutos-segundos sem conversão — sistemas de verificação esperam graus decimais
  • Arquivos em SIRGAS 2000 não reprojetados — infomação tecnicamente correta mas em sistema de referência não padrão
  • Planilhas com lat/lng invertidos — longitude negativa no Brasil vai de -30 a -75; latitude negativa de -5 a -34. Valores fora desses intervalos indicam inversão.
  • Certo: GeoJSON em WGS84, com polígono da área produtiva, vinculado ao número do CAR e ao nome do produtor

O Que os Compradores Europeus Verificam

Os principais compradores europeus de cacau (chocolateiros holandeses, alemães e belgas) estão desenvolvendo sistemas de verificação automatizada. Eles rodam seus próprios scripts de intersecção espacial com os dados que você fornece. Se suas coordenadas forem inválidas, incompletas ou em formato errado, o lote é sinalizado para revisão manual — o que atrasa o pagamento e pode resultar em devolução do contrato.

Os sistemas mais comuns verificam automaticamente: sobreposição com o PRODES (alertas de desmatamento), sobreposição com Unidades de Conservação (SISUCa/CNUC), sobreposição com Terras Indígenas (FUNAI/SIIGEF), e cobertura florestal em 2020 (Global Forest Watch).

Compartilhar artigo

Pronto para automatizar este processo?

A Terralyr integra monitoramento satelital, automação de conformidade EUDR e estruturação de finanças naturais para a América Latina.

Explorar Terralyr
Georreferenciamento EUDR: O Que Compradores Europeus Exigem | Terralyr | Terralyr